
ÉTICA E SINGULARIDADE NA PRÁTICA DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: A RESPONSABILIDADE DO ORIENTADOR NA MEDIAÇÃO ENTRE LIBERDADE E INFLUÊNCIA
Artigo Escrito Por Lourena Gimo
5min Leitura | Leia AQUI na íntegra.

A orientação vocacional constitui-se como um campo teórico-prático fundamental no acompanhamento dos processos de escolha profissional e de construção de projectos de vida que envolve uma relação profundamente assimétrica entre orientador e orientando, marcada por influência, poder simbólico e responsabilidade ética. O presente artigo tem como objectivo analisar a prática da orientação vocacional problematizando a tensão entre liberdade e influência e considerando que a orientação vocacional eticamente responsável exige do orientador uma postura mediadora, reflexiva e consciente do impacto das suas intervenções, orientada para a promoção da autonomia do sujeito.
24 JAN 2026 - MAPUTO
1. A centralidade do sujeito na fundamentação teórica da orientação vocacional
As bases modernas da orientação vocacional encontram-se no modelo traço-factor, sistematizado por Frank Parsons no início do século XX, segundo o qual, a escolha vocacional deveria assentar numa correspondência racional entre as características do indivíduo e as exigências do mundo do trabalho, sendo a orientação concebida como um processo essencialmente técnico de ajustamento. O autor sintetiza este modelo em três momentos fundamentais:
Embora este modelo tenha desempenhado um papel decisivo na institucionalização da orientação vocacional enquanto campo científico e profissional, a sua lógica foi posteriormente alvo de críticas, sobretudo pelo seu carácter mecanicista e determinista. Ao privilegiar a mensuração de traços e a adequação a perfis profissionais previamente definidos, o modelo traço-factor tende a reduzir o sujeito a um conjunto de variáveis quantificáveis, negligenciando a historicidade, a mutabilidade e a dimensão subjectiva da escolha vocacional.
Em contraponto a esta visão estática da escolha, Donald Super introduz uma viragem conceptual significativa ao propor a teoria do desenvolvimento da carreira. Para ele a escolha vocacional não constitui um acto isolado, mas “um processo de desenvolvimento e implementação do autoconceito” (Super, 1957, p. 195). Nesta perspectiva, a carreira é entendida como uma expressão dinâmica da identidade do sujeito, construída e reconstruída em função das experiências vividas, dos papéis sociais desempenhados e das transições que marcam o percurso de vida. Este enquadramento desloca o foco da orientação vocacional de uma decisão pontual para um acompanhamento prolongado do desenvolvimento pessoal e profissional.
As abordagens mais recentes, de inspiração construtivista e construcionista, aprofundam esta viragem epistemológica ao colocarem a ênfase na narrativa, no significado e na singularidade da experiência vocacional. A teoria da construção da carreira, desenvolvida por Savickas concebe o sujeito como autor da sua própria história, sublinhando o carácter interpretativo e simbólico da escolha vocacional. Afirmar que “as pessoas não descobrem carreiras, constroem-nas” (Savickas, 2005, p. 43), implica compreender a orientação vocacional como um processo de co-construção de sentido, no qual o orientador assume o papel de facilitador da narrativa vocacional do orientando.
Neste quadro teórico, as teorias contemporâneas da orientação vocacional convergem no reconhecimento de que não existem percursos vocacionais universais, lineares ou normativos. Cada escolha emerge de uma configuração singular de factores psicológicos, sociais, culturais e históricos. Se “os indivíduos constroem os seus percursos em contextos sociais e simbólicos singulares” ( GUICHARD; HUTEAU, 2001, p. 27), a singularidade deixa de ser um elemento periférico para se tornar o núcleo da intervenção em orientação vocacional.
Este reconhecimento implica uma mudança ética e epistemológica profunda. Orientar não significa prever ou prescrever trajectórias com base exclusiva em instrumentos técnicos, mas consiste na criação de condições para que o sujeito compreenda a si próprio, os seus condicionamentos e as suas possibilidades, assumindo responsabilidade pelas suas escolhas. A orientação vocacional transforma-se, deste modo, num espaço de reflexão e de emancipação, e não de determinação.
2. O orientador como mediador ético da singularidade
A prática da orientação vocacional desenvolve-se num espaço relacional marcado por uma assimetria estrutural inevitável. O orientador detém saber especializado, autoridade profissional e legitimidade institucional, enquanto o orientando se encontra frequentemente numa situação de vulnerabilidade decisional, caracterizada por incerteza, expectativas externas e pressão social. Neste sentido, urge o reconhecimento de que “a orientação vocacional nunca é neutra; ela ocorre sempre no interior de relações de poder e de influência” (PARSON, 2014, p. 151), o que implica que toda intervenção orientativa é, simultaneamente, um acto técnico e ético.
Esta assimetria confere ao orientador um poder de influência que não pode ser ignorado. Cada gesto profissional produz efeitos concretos no modo como o orientando compreende a si próprio, as suas capacidades e as suas possibilidades futuras. Reconhecer a existência dessa influência constitui, assim, o primeiro passo para uma prática eticamente responsável, consciente dos seus limites e dos impactos que pode exercer sobre a trajectória do sujeito.
Com efeito, o orientador é eticamente responsável por não impor expectativas pessoais, por não reproduzir de forma acrítica estereótipos sociais ou profissionais e por não absolutizar os resultados de instrumentos psicométricos como se estes constituíssem verdades definitivas sobre o sujeito. A responsabilidade ética manifesta-se, assim, na capacidade de sustentar a incerteza própria do processo vocacional e de devolver ao orientando o lugar central na decisão.
É precisamente neste contexto que emerge a tensão constitutiva entre liberdade e influência, que se encontra no núcleo ético da orientação vocacional. Por um lado, a liberdade do orientando é condição indispensável para uma escolha autêntica e assumida; por outro, a própria existência da orientação implica mediação, enquadramento e influência. Considerando que “a neutralidade absoluta é uma ilusão, uma vez que toda a orientação se inscreve num quadro social, simbólico e normativo” (GUICHARD; HUTEAU, 2001. 29), o desafio ético da orientação vocacional não reside, portanto, na eliminação da influência, mas na sua gestão consciente, transparente e orientada para a ampliação das possibilidades do sujeito.
Esta mediação ética implica a explicitação dos condicionamentos sociais, culturais e económicos que atravessam a escolha vocacional, a valorização da experiência subjectiva do orientando e a devolução contínua da decisão ao próprio sujeito para que a orientação vocacional deixa de ser um dispositivo de ajustamento e transforma-se num espaço de reflexão crítica e de emancipação.
Em virtude disso, o orientador vocacional assume, o papel de mediador ético da singularidade. Não se trata de um técnico que ajusta indivíduos a profissões previamente definidas, nem de um conselheiro que prescreve caminhos, mas de um profissional que sustenta um processo reflexivo orientado para a autonomia. Esta mediação exige, para além de competências técnicas, capacidade de escuta, reflexividade crítica e consciência ética.
''Uma compreensão clara de si próprio, das suas aptidões, capacidades, interesses, ambições, recursos, limitações e das causas que lhes estão subjacentes; um conhecimento das exigências e condições de sucesso, das vantagens e desvantagens, da remuneração, das oportunidades e das perspectivas existentes nas diferentes áreas profissionais; e um raciocínio adequado sobre a relação entre estes dois conjuntos de factos (Parsons, 1909, p. 5).''
ARTIGOS REALICIONADOS


FUNDAMENTOS DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: DA TEORIA ÀS PRÁTICAS DE FORMAÇÃO
INTEGRAL DO SUJEITO
Com o avanço das ciências humanas e sociais, bem como com as mudanças económicas e culturais do século XX, este modelo revelou-se progressivamente insuficiente para dar conta da complexidade das trajectórias individuais. A instabilidade dos mercados de trabalho, a diversificação das identidades profissionais, a valorização da subjectividade...
24 JAN 2026 | MAPUTO
Contactos
+258 83 421 7659
info@muthianavoice.org
Siga-nos
Copyright © 2026 Muthiana Voice. Todos os direitos reservados.
