
FUNDAMENTOS DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: DA TEORIA ÀS PRÁTICAS DE FORMAÇÃO INTEGRAL DO SUJEITO
Artigo Escrito Por Lourena Gimo
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A orientação vocacional é um campo interdisciplinar que integra psicologia, educação, sociologia e ética, desempenhando papel central na formação integral do sujeito. Este artigo analisa os principais fundamentos epistemológicos contemporâneos e discute como eles orientam o processo de escolha profissional, considerando que a eficácia da orientação vocacional depende da articulação entre teoria e prática, da formação especializada, de políticas educativas consistentes e de um compromisso com a justiça social e a autonomia do sujeito.
24 JAN 2026 - MAPUTO
A orientação vocacional emerge historicamente como resposta às transformações profundas introduzidas pela modernidade industrial, pela escolarização em massa e pela progressiva complexificação do mundo do trabalho. No início do século XX, num contexto marcado pela racionalização dos processos produtivos e pela necessidade de alocar indivíduos a funções específicas, as primeiras práticas de orientação vocacional assumiram um carácter eminentemente técnico e adaptativo, centrado na identificação de aptidões e na adequação entre o indivíduo e as exigências das profissões disponíveis. Este enquadramento inicial, fortemente influenciado pelo positivismo e pela psicometria nascente, privilegiava a objectividade, a mensuração e a previsão do desempenho profissional.
Com o avanço das ciências humanas e sociais, bem como com as mudanças económicas e culturais do século XX, este modelo revelou-se progressivamente insuficiente para dar conta da complexidade das trajectórias individuais. A instabilidade dos mercados de trabalho, a diversificação das identidades profissionais, a valorização da subjectividade e a emergência de novas formas de desigualdade social colocaram em evidência os limites de uma concepção linear e determinista da carreira. A orientação vocacional passou, então, a integrar contributos da psicologia do desenvolvimento, da sociologia, da educação e da filosofia moral, deslocando o foco da simples escolha ocupacional para a compreensão do percurso de vida e da construção do sentido do trabalho.
Neste processo de evolução conceptual, a noção de carreira deixou de ser entendida como uma sequência previsível de posições profissionais e passou a ser concebida como uma construção dinâmica, atravessada por transições, rupturas e reconfigurações identitárias. A escolha vocacional passou a ser reconhecida como um processo contínuo, influenciado por factores internos, como interesses, valores, expectativas e narrativas pessoais, e por factores externos, tais como condições socioeconómicas, políticas educativas, contextos culturais e oportunidades reais de acesso à formação e ao trabalho. Esta mudança de perspectiva implicou também uma reformulação do papel do orientador, que deixou de ser um técnico prescritor para assumir uma função mediadora, educativa e ética.
Paralelamente, o desenvolvimento de novos paradigmas epistemológicos no campo da orientação vocacional reflecte debates mais amplos sobre o estatuto do sujeito, a relação entre indivíduo e sociedade e o próprio sentido da educação. Abordagens desenvolvimentistas, diferenciais, construtivistas, sociocognitivas e socioculturais coexistem e dialogam, oferecendo leituras complementares sobre o processo de escolha profissional. Esta pluralidade teórica, longe de constituir uma fragilidade, revela a riqueza e a complexidade do campo, mas exige uma análise crítica que permita compreender os pressupostos, os alcances e as limitações de cada fundamento.
Neste quadro, torna-se essencial explicitar os fundamentos epistemológicos que orientam as práticas de orientação vocacional, não apenas para clarificar as concepções de sujeito e de carreira subjacentes, mas também para avaliar as implicações éticas, educativas e sociais das intervenções realizadas. A sistematização desses fundamentos permite compreender por que razão determinadas práticas são privilegiadas em certos contextos e de que modo elas podem contribuir, ou não, para a formação integral do sujeito e para a promoção da autonomia e da justiça social.
É neste horizonte histórico, teórico e crítico que se insere a análise dos principais fundamentos da orientação vocacional apresentada nas secções seguintes. Ao examinar cada um deles, pretende-se evidenciar as suas raízes epistemológicas, os seus contributos para a compreensão do processo vocacional e os desafios que se colocam à sua tradução em práticas educativas coerentes e contextualizadas.
A perspectiva desenvolvimentista constitui um dos pilares da orientação vocacional contemporânea, ao conceber a escolha profissional como um processo gradual que se desenvolve ao longo do ciclo vital. Super (1990) defende que a carreira representa a implementação auto-consciente do conceito de si próprio, o qual se transforma à medida que o indivíduo atravessa diferentes fases da vida. Este modelo pressupõe acompanhamento prolongado e atenção às tarefas próprias de cada etapa do desenvolvimento vocacional. Contudo, em muitos contextos educativos, a pressão por decisões rápidas, a escassez de tempo e a ausência de programas longitudinais comprometem a aplicação efectiva desta abordagem, especialmente num mercado de trabalho marcado pela instabilidade e pela fragmentação das trajectórias profissionais. Torna-se, assim, necessário repensar a organização institucional da orientação, promovendo práticas contínuas, flexíveis e ajustadas à realidade contemporânea das carreiras.
A abordagem diferencial, de matriz psicométrica, introduz a importância da avaliação sistemática de aptidões, interesses, valores e traços de personalidade no processo de orientação. Desde Parsons (1909), com o princípio do ajustamento entre pessoa e ambiente, até à tipologia RIASEC de Holland (1997), este paradigma tem contribuído para a objectivação de dimensões relevantes da escolha vocacional. No entanto, a utilização acrítica de testes, frequentemente descontextualizados e sem validação cultural local, tende a reduzir a complexidade do sujeito a perfis estandardizados. A ausência de formação técnica adequada e de protocolos éticos agrava este risco, tornando imperativa uma utilização integrada dos instrumentos psicométricos, articulada com métodos qualitativos e com uma leitura crítica dos resultados.
O paradigma construtivista e narrativo introduz uma mudança significativa ao compreender a carreira como uma construção de sentido, ancorada na história de vida do sujeito. Savickas (2013) afirma que a carreira não é descoberta, mas construída, através das narrativas que o indivíduo elabora sobre quem é e quem deseja tornar-se. Esta perspectiva valoriza a subjectividade, a reflexividade e a multiplicidade de identidades possíveis, conforme sublinha Guichard (2009). Apesar da sua relevância teórica, a implementação deste paradigma enfrenta limitações práticas associadas à falta de tempo, à sobrecarga dos serviços de orientação e à insuficiente formação em metodologias narrativas. Ainda assim, estratégias como entrevistas narrativas estruturadas, diários reflexivos e dispositivos digitais podem viabilizar a sua aplicação em contextos educativos reais.
A teoria sociocognitiva e a abordagem sociocultural ampliam a análise da orientação vocacional ao evidenciarem o impacto das condições sociais na construção das escolhas profissionais. Lent, Brown e Hackett (1994) demonstram que as oportunidades educacionais e profissionais são distribuídas de forma desigual, condicionando expectativas e trajectórias. Sen (1999) reforça esta perspectiva ao afirmar que a liberdade de escolha depende das capacidades reais disponíveis aos indivíduos. Estudos sociológicos, como os de Willis (1977), mostram ainda como factores como classe social, género e território moldam percursos de carreira. Em contextos marcados por pobreza ou fragilidade económica, a orientação vocacional corre o risco de se subordinar às exigências imediatas do mercado, em detrimento da autonomia e da justiça social, o que exige intervenções articuladas com políticas públicas e redes comunitárias.
A dimensão ética atravessa transversalmente todas as práticas de orientação vocacional. Cohen e Swerdlik (2010) sublinham que a ética na avaliação e na intervenção não se reduz à competência técnica, dependendo também das condições institucionais que garantam confidencialidade, respeito e autonomia do orientando. Pressões administrativas, partilha indevida de informação e ausência de espaços adequados comprometem frequentemente estes princípios, tornando necessária a adopção de códigos éticos claros, formação contínua e uma delimitação rigorosa entre orientação e controlo institucional.
Finalmente, o fundamento educativo da orientação vocacional reconhece-a como parte integrante do processo formativo global. Watts (2001) defende que a educação para a carreira deve ser contínua, sistemática e integrada no currículo escolar. Apesar disso, muitas instituições limitam a orientação a actividades pontuais, desarticuladas do projecto educativo, e os docentes raramente recebem formação específica nesta área. A integração curricular da orientação vocacional revela-se, assim, uma condição essencial para promover decisões informadas, reflexivas e socialmente conscientes.
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